Potencial, limitações e efeitos produtivos

Nas últimas décadas, o aumento da produção mundial de biocombustíveis levou também a um crescimento significativo da disponibilidade de coprodutos que passaram a ser amplamente utilizados na alimentação animal. Embora sejam usados sobretudo na alimentação de bovinos e suínos, também podem integrar dietas de aves. Contudo, a investigação tem incidido principalmente em frangos e galinhas poedeiras, existindo menos estudos sobre o seu uso em patos e gansos, apesar da importância económica destas produções nalguns países.

Os coprodutos apresentam um perfil nutricional interessante, pois contêm os nutrientes do grão original numa forma concentrada. O amido é removido durante a fermentação, pelo que os restantes componentes tornam-se cerca de três vezes mais concentrados. Em média, apresentam cerca de 30% a 35% de proteína, 12% de lípidos e cerca de 5% de minerais, além de elevados níveis de fibra.

Este perfil permite que substituam parcialmente ingredientes comuns das rações, como o milho (fonte de energia), o bagaço de soja (fonte de proteína) ou fontes minerais de fósforo. Além disso, possuem compostos antioxidantes naturais, como fenóis, tocoferóis e xantofilas que contribuem para a estabilidade do produto durante o armazenamento e podem influenciar características dos produtos de origem animal, como a coloração da gema do ovo. Outro aspeto relevante é o potencial económico. A incorporação de coprodutos nas rações, pode reduzir o custo da alimentação animal, tornando-se uma alternativa interessante em períodos de aumento do preço das matérias-primas tradicionais.

Apesar das vantagens, o uso de coprodutos apresenta algumas limitações que exigem cuidados na formulação das dietas. A composição nutricional pode variar significativamente consoante o cereal utilizado e as condições do processo industrial de produção de etanol. Essa variabilidade pode afetar a digestibilidade dos nutrientes e o desempenho produtivo das aves. Outro problema importante é a baixa disponibilidade de lisina, um aminoácido essencial para o crescimento das aves.

O aquecimento durante a produção pode provocar reações químicas que reduzem a digestibilidade, tornando necessária a suplementação das dietas. Os coprodutos também apresentam elevado teor de fibras e polissacarídeos não solúveis, o que pode reduzir a digestibilidade dos alimentos. A utilização de enzimas, como xilanases e β-glucanases, tem sido proposta como estratégia para melhorar a utilização nutricional destes ingredientes.

Além disso, existem riscos associados à contaminação por micotoxinas, uma vez que podem concentrar-se durante o processo de produção. O controlo regular das matérias-primas é essencial para garantir a segurança alimentar.

Alguns estudos realizados em patos indicam que os coprodutos podem ser incorporados na alimentação, sem comprometer o desempenho produtivo quando utilizadas em níveis moderados. Em geral, taxas de incorporação até cerca de 24–25% nas dietas de crescimento e acabamento não afetam significativamente o ganho de peso, a composição da carcaça ou a qualidade da carne. Contudo, níveis mais elevados, próximos de 30% podem provocar redução do peso vivo ou alterações na composição corporal, como diminuição da deposição de gordura.

Em alguns estudos também foram observadas reduções na digestibilidade da matéria seca e dos lípidos quando a inclusão de coprodutos aumentava. Em termos gerais, quando bem equilibradas em aminoácidos e energia, as dietas com coprodutos revelam-se adequadas para patos em crescimento.

Nos gansos os resultados existentes indicam tendências semelhantes às observadas em patos. A incorporação de coprodutos de milho ou sorgo não apresenta efeitos negativos significativos sobre o crescimento, a composição da carcaça ou a qualidade da carne. Alguns estudos referem apenas pequenas alterações na eficiência alimentar ou na oxidação lipídica da carne durante o armazenamento, efeitos que podem ser minimizados com ajustes na formulação das dietas ou com a inclusão de antioxidantes.

Nos patos em produção de ovos, a utilização de coprodutos tem sido estudada sobretudo em relação às performances de postura e qualidade dos ovos. De modo geral, níveis moderados de incorporação não prejudicam a taxa de postura nem o índice de conversão alimentar. Estudos demonstram mesmo melhorias na produção ou no peso dos ovos, possivelmente devido ao aumento do teor energético e proteico das dietas. Além disso, a presença de pigmentos naturais nos coprodutos contribui para intensificar a coloração da gema, característica frequentemente valorizada pelo mercado. Por outro lado, níveis muito elevados podem reduzir alguns parâmetros de qualidade interna do ovo, como as unidades Haugh, pelo que a inclusão deve ser controlada.

Para além dos aspetos nutricionais, a utilização de coprodutos também tem implicações ambientais e tecnológicas. A sua inclusão na alimentação de aves pode reduzir a excreção de fósforo e azoto, contribuindo para diminuir o impacto ambiental das explorações pecuárias. No entanto, a produção deste coproduto e o seu transporte também têm impactos ambientais que devem ser considerados em análises de ciclo de vida. Em termos tecnológicos, níveis elevados de coprodutos podem afetar a qualidade física das rações granuladas, reduzindo a resistência dos grãos.

Podemos concluir que os coprodutos representam uma matéria-prima promissora na alimentação de patos e gansos, permitindo diversificar ingredientes e reduzir custos de produção. De acordo com os estudos existentes, a sua utilização pode ser considerada segura quando respeitados certos limites: cerca de 25% nas dietas de crescimento e acabamento de patos e gansos, 15% quando se trata de coprodutos de sorgo e aproximadamente 18% nas dietas de patas poedeiras. Apesar das vantagens nutricionais e económicas, a utilização destes coprodutos exige atenção à formulação das dietas, à suplementação em aminoácidos e ao controlo de contaminantes como micotoxinas. A investigação nesta área continua a ser necessária, especialmente para avaliar os impactos económicos, ambientais e produtivos do uso de coprodutos em sistemas de produção de palmípedes, cujo crescimento é particularmente expressivo em várias regiões do mundo.

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Departamento técnico da TNA

Fontes:

https://productions-animales.org/article

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