Por que razões devemos diminuir o uso de antibióticos nas nossas explorações?

As razões são várias:

  1. A legislação assim o exige;
  2. Um uso mais criterioso de antibióticos permitirá a manutenção do efeito terapêutico por períodos mais longos;
  3. Pelo aparecimento de bactérias multirresistentes tanto nos animais como nos Humanos.

Ao mesmo tempo, nos últimos anos não temos assistido ao desenvolvimento de novas famílias de antibióticos por parte das empresas farmacêuticas. Podemos afirmar que neste momento as bactérias evoluem mais depressa e com maior eficiência do que os fármacos que estão ao nosso dispor para as combater.

É muito importante que todos os profissionais que lidam com a saúde animal e humana tomem medidas que permitam inverter esta tendência, e evitar algo que podemos definir como uma catástrofe anunciada e já num futuro muito próximo.

Sob o ponto de vista do Humano consumidor de produtos de origem animal, no imediato, o problema é de fácil resolução. Passo a explicar: mesmo que qualquer pessoa consuma um alimento com origem num animal que esteve sujeito a um tratamento por antibióticos, nada há a recear desde que os intervalos de segurança do fármaco em causa forem (e na prática, são) cumpridos.

O problema existe sim, numa perspetiva mais ampla:

Se a um animal, ou grupo de animais for administrada uma terapêutica antibiótica, esses mesmos animais vão excretar os seus metabolitos para o ambiente, provocando uma contaminação dos ecossistemas pelos referidos produtos de excreção. O problema põe-se sobretudo a este nível.

São vários os exemplos que conhecemos por uso indevido de antibióticos tanto nos humanos como nos animais.

No entanto, a Royal Pharmaceutical Society (UK), afirma o seguinte:

  • Ao utilizarmos AB nos animais, podemos criar resistências e que essas resistências podem ser transmitidas aos Humanos;
  • No entanto, num balanço geral, a contribuição da atividade pecuária para o aparecimento dessas resistências, é muito menor do que a quota-parte causada pelo uso indevido em humanos;
  • Mesmo assim, temos de garantir que o risco na área da produção animal é o menor possível.

Apesar das evidências presentes nas afirmações (seguramente fundamentadas) da Royal Pharmaceutical Society, o sector Veterinário também tem de contribuir para a resolução deste problema.

Desde logo, modificando a sua postura face à prescrição e utilização destes produtos:

  • Promotores de crescimento – não usar (proibidos por lei)
  • Uso profilático – não usar
  • Uso terapêutico – usar sim, mas com critério.

Um desses critérios pode passar por fazer rotineiramente testes de sensibilidade aos antibióticos (TSA). Mesmo que por questões de logística ou de tempo, esse teste possa ter uma valia baixa para os animais que pretendemos tratar naquele momento, dá-nos sempre uma ideia concreta sobre as estirpes bacterianas prevalentes numa dada exploração.

Na escolha do produto a utilizar, é sempre preferível usar um que seja mais específico para controlar a bactéria em causa, do que um AB de largo espectro, que acaba por “matar o que deve e o que não deve”. Uma “microbiota” segura, estável e adaptada ao hospedeiro é um importante critério para a existência de animais saudáveis.

Numa verdadeira estratégia para reduzir o uso de Antibióticos, é necessário pôr em prática um programa com base na prevenção e nas boas práticas de produção. Por outras palavras, para que os antibióticos não sejam necessários, é imprescindível “respeitar” os animais, oferecendo-lhes todas as condições de bem-estar, higiene e conforto. Assim, essa estratégia passa por:

  • Qualidade das matérias-primas utilizadas no fabrico dos alimentos

Qualidade no sentido alargado do termo. Isto é, em relação aos parâmetros nutricionais, químicos e microbiológicos.

  • Cumprimento rigoroso das necessidades nutricionais

Formular de acordo com a espécie e fase do seu desenvolvimento. As necessidades nutricionais dos animais são as mesmas, independentemente do preço mais alto ou mais baixo das matérias-primas.

  • Genética – eficiência produtiva versus rusticidade

A evolução genética tem sido direcionada para a maximização da produção, muitas vezes à custa de uma maior sensibilidade dos animais face às agressões externas. Um acréscimo de rusticidade seria bem-vindo.

  • Profilaxia Médica – Programas de vacinação

Ferramenta indispensável para uma boa sanidade.

  • Qualidade da água de bebida

As explorações pecuárias devem fornecer aos animais água de bebida cujos parâmetros de qualidade sejam sobreponíveis aos parâmetros utilizados para água de consumo humano. Não nos esqueçamos que os animais consomem geralmente uma quantidade de água que corresponde ao dobro (ou mais) do que o alimento que ingerem.

  • Maneio geral

É um conceito muito amplo, mas que diz respeito a toda a envolvente dos animais. O maneio pode ser definido como “o conjunto de procedimentos levados a cabo pelo Homem na sua relação com os animais de produção”. Os animais devem ser criados com o máximo bem-estar e conforto. Deste modo têm condições, tanto para crescer saudáveis, como para maximizar o seu potencial produtivo, e consequentemente maximizar o lucro.

  • Biossegurança

É também um conceito que tem a ver com o maneio, mas diz respeito sobretudo à higiene e ao isolamento das explorações. Atrevo-me a dizer que sem um bom programa de Biossegurança, o sucesso de uma exploração em termos zootécnicos é um mero acaso.

O cumprimento rigoroso destas regras é a verdadeira alternativa ao uso de antibióticos. No entanto, e dado que não conseguimos controlar efetivamente todos os parâmetros, existem alguns produtos que de um modo mais ou menos eficaz nos auxiliam a produzir melhor.

Pelas experiências do passado (com o uso de AB promotores de crescimento, por exemplo), todos estes produtos têm uma relação custo-benefício menos favorável. No entanto, são excelentes auxiliares de produção e baseiam-se na modelação positiva da interface intestinal.

Controlam a microflora, diminuem a carga microbiana contaminante dos alimentos, assim como a aumentam a digestibilidade. Não nos esqueçamos que a interface intestinal é a razão de ser da produção pecuária. Isto é, se estiverem salvaguardados os parâmetros de bem-estar e conforto, os animais produzem melhor ou pior através da qualidade e quantidade do alimento que consomem.

Essas alternativas passam por:

  • Probióticos
  • Prébióticos
  • Enzimas
  • Ácidos Orgânicos
  • Fitobióticos

Seguramente que a investigação esclarecerá algumas dúvidas em relação a estes produtos, nomeadamente no que diz respeito à eficácia, segurança, resistências, possíveis efeitos adversos nos Humanos, etc., para além do fator preço.

Parece-me simplista demais afirmar que só pelo facto de um produto ser de origem vegetal tem desde logo a aura de produto seguro, face a um produto industrial de síntese, que muitos classificam como potencialmente negativo para pessoas e animais. Mais uma vez afirmo que a investigação certamente que trará luz sobre o tema.

Todos estes produtos que referi como alternativas aos antibióticos podem ser encaixados no conceito de produtos “Nutracêuticos”.

Definem-se como Fontes alimentares que para além dos aspetos nutricionais, possam trazer benefícios adicionais para a saúde de quem os ingere.

O seu uso tem como objetivos o bem-estar animal, melhores produções e segurança para o consumidor.

Correndo assumidamente o risco de me repetir, afirmo que as verdadeiras e mais eficazes alternativas ao uso de Antibióticos em produção pecuária são:

  • Qualidade das matérias-primas usadas no alimento
  • Cumprimento rigoroso das necessidades nutricionais
  • Genética – eficiência produtiva versus resistência e rusticidade
  • Profilaxia Médica (programas de vacinação)
  • Higiene geral
  • Água de bebida
  • Maneio e Biossegurança

Para terminar direi que:

Uso de antibióticos… seguramente que sim.

São instrumentos indispensáveis para a produção pecuária. Na minha perspetiva, e para além de qualquer critério economicista, um animal doente não é um animal que apresente uma condição de bem-estar. É preciso tratá-lo. Se for o caso, os Antibióticos são uma arma que está ao nosso dispor. Sempre usados com critério.

Na TNA temos soluções para uma produção segura. Fale connosco.

José João Rainho de Sousa Nunes

Médico Veterinário

TNA – Tecnologia e Nutrição Animal, S.A.

Nota: Resumo de comunicação apresentada nas VII Jornadas de Alimentação animal da IACA

Categorias: Notícias