Breves notas sobre critérios nutricionais e de qualidade

A galinha poedeira é uma máquina biológica muito produtiva e ao mesmo tempo bastante complexa. Para além dos aspetos genéticos e de maneio, o alimento joga um papel fundamental. Sem um alimento de qualidade, rigorosamente formulado, nunca será possível atingir boas performances produtivas.

Em traços muito gerais, podemos dividir o programa e tipo de alimentação em dois grandes grupos:

  1. Alimentos da fase de cria e recria;
  2. Alimentos da fase de produção.

Se a fase 2 é determinante face ao objetivo de criar galinhas – produção de ovos, importa na fase 1 criar uma estrutura corporal sólida e equilibrada, sem a qual será impossível maximizar todo o potencial produtivo da fase seguinte.

Convém desde logo esclarecer que a formulação de alimentos corresponde à otimização de uma mistura de matérias-primas alimentares (disponíveis no mercado), com base no melhor preço e na satisfação das necessidades nutricionais da espécie animal e da fase em questão.

É indispensável a utilização de uma pré-mistura vitamínico mineral (vulgo premix), sem a qual é impossível atingir os níveis normais de crescimento e produção. Os valores destes nutrientes são facilmente acessíveis através da consulta dos guias nutricionais das várias estirpes. Fazem parte deste premix as vitaminas, oligoelementos, micro-minerais, enzimas e outros aditivos. O premix é considerado por muitos (de modo infundado), como algo que tem um peso excessivo na ração em termos de custos. É absolutamente errado pensar desse modo, pois como referi é indispensável e determinante nos resultados produtivos finais, face às características genéticas dos animais com que hoje trabalhamos.

Por outro lado, comparar premixes exclusivamente com base no preço também não é a atitude correta. Vários aditivos e enzimas podem já ser incorporados no premix (o que obrigatoriamente terá reflexos no preço final), ao mesmo tempo que a biodisponibilidade de alguns dos seus componentes também pode ser questionada.

Dou um exemplo concreto em relação às vitaminas:

Alguns produtos vitamínicos para incorporação no premix têm preços mais baratos, o que face a outros com preço superior, parecem ser uma boa solução. Na maior parte das vezes, os que são mais caros, são comercializados por empresas fidedignas, possuidores de certificados de qualidade e conformidade, e que na prática têm uma superior estabilidade e biodisponibilidade. Neste caso, a aposta só pode estar no lado da qualidade, mesmo que implique um preço superior.

A qualidade intrínseca das matérias-primas de volume (trigo, milho, soja, girassol, etc.) também é fundamental. Mesmo um pequeno desvio qualitativo numa destas matérias-primas, que entram nas rações em grande volume (de 20% a 60% ou mais), pode significar numa alteração importante na qualidade do produto final.

Existem outros produtos que normalmente se incorporam nas rações que para os menos informados poderão passar por “gasto de dinheiro” dispensável. Refiro-me aos conservantes, estabilizadores da flora intestinal, acidificantes, enzimas, sequestrantes de micotoxinas, e outros. Não os utilizar é uma falsa poupança. Os animais com que hoje trabalhamos são extremamente exigentes, e estes produtos tecnológicos permitem aumentar a eficácia do alimento, e com isso proporcionar melhores produções e melhor estado de saúde às aves.

Um dos bons procedimentos para avaliação da eficácia do alimento é a pesagem regular dos animais. Qualquer desvio (por excesso ou por defeito) pode ser corrigido através da correção das quantidades diárias de alimento a administrar, ou por alteração das suas características nutricionais.

Cria e recria

Regra geral, nesta fase são administrados 4 alimentos distintos (estas fases podem variar de acordo as necessidades de cada bando e com a estirpe em causa):

  • Iniciação I – das 0 às 4 semanas;
  • Iniciação II – das 5 às 10 semanas;
  • Crescimento – das 11 às 16 semanas;
  • Pré-postura – após 5 a 7 dias da passagem para os pavilhões de produção, até ao aparecimento dos primeiros ovos.

As galinhas poedeiras são aves de crescimento lento. O importante nesta fase não é ganhar peso a todo o custo, mas antes promover o dito crescimento de forma sustentável, tendo como base os padrões determinados pela estirpe.

Em qualquer ração, dois fatores são grandes responsáveis pelo custo final. Refiro-me à Proteína e à Energia. As matérias-primas geralmente utilizadas e que mais peso e influência têm quanto a estes parâmetros são a soja e os aminoácidos sintéticos no que diz respeito à proteína, e os cereais e as gorduras em relação à energia.

Nos atuais padrões de formulação já se secundarizou o valor da Proteína Bruta (PB). São muito mais importantes os teores dos vários aminoácidos digestíveis. Isto é, que pelo facto de uma ração ter um ou dois pontos percentuais acima no valor de PB, não significa que esta seja melhor do que outra com esse valor mais baixo, dependendo mais dos níveis equilibrados dos referidos aminoácidos.

Os alimentos de iniciação são consumidos em pequenas quantidades (principalmente o Crescimento I), mas são de extrema importância. Deve existir uma escolha criteriosa quanto à qualidade das matérias-primas que incorporam.

Na primeira fase a Proteína Bruta é mais elevada, mas como já referi, este valor pode não ter grande significado, pois os padrões de nutrição azotada que hoje consideramos são os aminoácidos digestíveis e não a PB.

Nesta fase a Energia, apesar de elevada, tem um valor substancialmente mais baixos do que o utilizado em frangos de carne, por exemplo. Aqui o objetivo não é crescer depressa.

É importante ter teores de fibra relativamente contidos, mas sobretudo equilibrados. Apesar de se tratarem de animais muito jovens, é fundamental para o processo de maturação do aparelho digestivo. O equilíbrio dos teores de minerais (sobretudo cálcio e fósforo) são igualmente importantes para promover um bom crescimento e fortalecimento do esqueleto.

A iniciação II é um alimento de continuidade em relação à iniciação I, mas com padrões nutricionais ligeiramente diferentes.

Como já referi, o controlo do peso corporal é fundamental para possíveis ajustamentos do programa alimentar.

O alimento de crescimento é, em teoria, um alimento relativamente pouco rico na sua concentração nutricional, mas mesmo assim, o objetivo principal é a manutenção de uma boa condição corporal. Se as frangas engordarem em demasia, vão por em causa a sua futura capacidade ovopoiética. A gordura corporal em excesso é inimiga do normal desenvolvimento do ovário e oviduto. 

A Proteína, os aminoácidos e a Energia são mais baixos em relação às fases de Iniciação, ao mesmo tempo que os teores de fibra são mais elevados, muitos importantes pois desde logo vão modelar a capacidade de ingestão futura das aves.

Pré-postura

É uma fase de extrema importância, mas que muitas vezes não é devidamente considerada por muitos produtores.

Por volta das 16 semanas de vida devem-se passar as frangas do pavilhão de recria para o pavilhão de produção. Durante cerca de uma semana deverão continuar a comer a ração de crescimento, já que é errado mudar de instalações e de alimento em simultâneo. Após essa semana deve-se iniciar a administração da pré-postura até ao aparecimento dos primeiros ovos.

A ração de pré-postura tem características especiais e o objetivo principal de suprir nutricionalmente algumas necessidades das aves, nomeadamente nos teores de cálcio. Nesta altura, as aves desenvolvem uma estrutura óssea especial, denominada de “osso medular”, que tem uma enorme importância no metabolismo deste mineral, tanto nesta fase como em todo o seu futuro produtivo. As características gerais deste alimento assemelham-se bastante às das rações de produção, mas com teores de Cálcio mais baixos (normalmente entre 2% e 2,5%). Logo nesta fase, cerca de 35% do total do cálcio administrado deve ser sob a forma de partículas grosseiras (cálcio granulado com partículas de dimensões de aproximadamente 4mm).

Produção

Nesta fase deverão existir 3 ou mais alimentos, a distribuir em função da idade do bando e dos seus índices produtivos. A longevidade das galinhas é hoje muito superior, mesmo em relação a um passado recente. As “mudas forçadas de penas” estão proibidas por lei, e foram no passado um mecanismo comum para aumentar a vida produtiva dos bandos. Atualmente é comum as próprias estirpes considerem bandos em produção até às 100 semanas de vida.

Por este facto, à medida que os bandos vão envelhecendo, há a necessidade de adaptar o alimento à nova condição das aves.

Por outro lado, a composição do alimento deve variar em função do consumo diário. Obviamente que a ração não deve ser igual em casos que as aves consumam 95g de ração/dia, face a outras com um consumo de 120g de ração/dia, por exemplo.

No período de produção, o cálcio tem grande importância. Não apenas nas quantidades em que é administrado, mas também (e como já referi), quanto à forma em que é apresentado. Os teores absolutos deste mineral devem aumentar à medida que as aves vão sendo mais velhas, ao mesmo tempo que a relação entre cálcio granulado face ao cálcio em pó também deve ser alterada, com quantidades de granulado cada vez mais altas, ao longo das várias fases.

À medida que as aves vão envelhecendo, a qualidade do encascamento do ovo tem tendência a degradar-se. Este facto deve-se a algumas situações que ocorrem em simultâneo. Em primeiro lugar, o aumento do volume do ovo. Um ovo maior necessita de uma quantidade mais elevada de cálcio para o “fabrico” da casca. Por outro lado, e inerente à idade dos bandos, a menor eficiência do metabolismo do cálcio, nomeadamente a menor capacidade de absorção e mobilização deste mineral.

Em complementaridade com a administração do cálcio, é importante considerar também os valores de Vitamina D3. Esta vitamina controla todo o processo de absorção do cálcio, assim como o seu metabolismo geral. Se o processo não for eficiente, o tamanho dos ovos e o seu encascamento serão deficientes. Temos hoje a possibilidade de administrar a Vitamina D3 sob formas metabolicamente mais ativas (o caso do 25Hidroxianálogo, também conhecido por HyD), que melhora consideravelmente todos estes parâmetros. A administração do HyD deve ser feita o mais cedo possível, pelo menos desde a pré-postura, e continuando durante toda a fase de produção.

Devo acrescentar que o alimento, apesar da grande importância que tem, é apenas um dos fatores a maximizar no sentido de obter uma otimização da produção.

De nada serve ter um alimento de qualidade superior, se esse apuro não for acompanhado pelas condições gerais de maneio (desde o dia de chegada das pintas do dia ao pavilhão de recria), pelo correto programa vacinal e profilático, assim como às características genéticas do animal.

Reforço a importância da fase de cria e recria. O produto final – a galinha poedeira em produção, não será um “produto de qualidade” se existirem problemas no arranque e crescimento inicial das aves. Mesmo sabendo que só após 18 ou 20 semanas vamos começar a ter o retorno financeiro do investimento (a produção de ovos), um “mau” início compromete toda a produção futura.

Temos sugestões e soluções para estes problemas. Contacte-nos.

José João R. Sousa Nunes Médico Veterinário

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